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Susana Pacheco: encontrar nas fotografias as mulheres que a História pouco contou

Susana Pacheco: encontrar nas fotografias as mulheres que a História pouco contou

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Sou fã de fotografias. Tiro muitas porque gosto de voltar a elas e recordar os momentos, as pessoas, aquilo que estava a viver quando as tirei. Quando vejo fotografias antigas de outras pessoas, dou por mim a imaginar como seria a vida de quem ali ficou. Quem eram aquelas pessoas? Como passavam os seus dias? Do que falavam? Sou curiosa. Gosto, sempre, de saber mais. De imaginar. Talvez por isso me tenha interessado tanto conhecer o trabalho da Susana Pacheco.

A Susana dedica-se à arqueologia contemporânea e estuda, em particular, fotografias de mulheres ligadas à indústria portuguesa. Mulheres que trabalharam, tiveram famílias, enfrentaram dificuldades e de quem sabemos tão pouco ou mesmo nada.

Esta conversa deixou-me a pensar em quantas histórias ficam por contar dentro de uma família, de uma fábrica ou de uma comunidade. E em como precisamos de quem tenha a curiosidade e a paciência de as procurar. Falámos de fotografia, de património e de museus, mas também de algo que me toca muito: a vontade de conhecer a vida de quem veio antes de nós, mesmo quando dessa vida restam apenas alguns vestígios.

De alguma forma, reconheço nessa curiosidade a vontade que me leva a convidar as pessoas que passam por esta rubrica. Aqui, tenho a possibilidade de lhes perguntar, de as ouvir contar a sua própria história. De conhecer um pouco de quem são, do que viveram e daquilo que é importante para elas. E gosto de pensar que estas conversas também ficam, para que um dia alguém possa voltar a elas e conhecer um pouco mais de quem esteve deste lado.

1. O que a levou a interessar-se por vestígios, objetos ou histórias do passado?

Sempre gostei de História e, sobretudo, de tentar perceber como chegámos até aqui, ou seja, como é que as sociedades se transformaram, como mudaram as formas de viver, trabalhar, habitar ou relacionar-se e, acima de tudo, como seria a vida das pessoas que viveram antes de nós.

Sempre me interessaram particularmente as pessoas “comuns”, aquelas cujos nomes raramente aparecem nos grandes documentos históricos e cujas experiências ficaram muitas vezes à margem das narrativas mais tradicionais. É também por isso que os objectos do quotidiano me fascinam. Um objecto aparentemente banal, um espaço doméstico, uma ferramenta de trabalho ou uma fotografia podem revelar muito sobre a forma como uma pessoa ou uma comunidade vivia, sobre as suas rotinas, dificuldades, relações ou até sobre aspectos que nunca chegaram a ser escritos.

A arqueologia permite precisamente aproximarmo-nos dessas histórias através dos vestígios materiais que ficaram para trás. Gosto dessa ideia de partir de fragmentos, muitas vezes muito simples, para tentar reconstruir experiências humanas e dar maior visibilidade a vidas que, de outra forma, poderiam permanecer praticamente desconhecidas.

2. Que descoberta ou objeto mais a fez sentir proximidade com pessoas que viveram há séculos?

Como me dedico sobretudo à arqueologia contemporânea, a cronologia com que trabalho é bastante mais recente. Trata-se de uma área da arqueologia que estuda o passado recente através da sua cultura material, mostrando que também os objectos, os espaços e as imagens dos séculos XIX, XX ou até do presente podem ser abordados arqueologicamente.

Por isso, o objecto que escolheria teria de ser a fotografia. É também aquele com que mais trabalho na minha investigação. Uma fotografia permite-nos estar, de certa forma, frente a frente com pessoas que viveram antes de nós: vemos os seus rostos, a forma como se vestiam, os espaços em que trabalhavam, os objectos que utilizavam e, por vezes, pequenos gestos ou expressões que criam uma sensação muito imediata de proximidade.

No meu caso, trabalho sobretudo com fotografias de mulheres ligadas à indústria portuguesa. Interessa-me não apenas aquilo que a imagem mostra, mas também aquilo que podemos perceber através dela sobre as condições de trabalho, as relações entre homens e mulheres, a organização dos espaços ou a forma como estas trabalhadoras eram representadas. Ao mesmo tempo, olho para a própria fotografia como um objecto: quem a produziu, para que finalidade, como foi enquadrada, recortada, legendada, guardada ou utilizada. Essa combinação entre a presença muito concreta de uma pessoa na imagem e todas as histórias que existem à sua volta é talvez aquilo que mais me faz sentir próxima de quem viveu no passado.

3. Como se evita transformar património apenas em algo para observar à distância?

Creio que isso passa, antes de mais, por manter o património vivo. Não basta preservar um lugar ou um objecto e esperar que as pessoas regressem simplesmente porque ele existe. É importante permitir que as comunidades o vivenciem, que visitem esses espaços, que os utilizem e que eles possam continuar a transformar-se ao longo do tempo, naturalmente sem perderem a sua identidade ou comprometerem aquilo que se pretende preservar.

Para mim, um dos aspectos mais importantes é precisamente ouvir as comunidades locais e perceber o que esperam daquele património, que significado lhe atribuem e de que forma gostariam de o ver utilizado. Quando as pessoas são incluídas no processo de patrimonialização e sentem que as suas opiniões e experiências foram tidas em conta, é muito mais provável que continuem a reconhecer esse património como seu e que mantenham uma relação activa com ele, visitando-o, cuidando dele, preservando-o e transmitindo o seu valor às gerações seguintes.

Um património completamente estático corre o risco de se transformar apenas num cenário para observar à distância. Pelo contrário, quando continua a fazer parte da vida das pessoas, adapta-se sem perder a sua identidade e permanece acessível, pode continuar a produzir memórias, experiências e novos significados. No fundo, o património deve ser pensado como algo que pertence às comunidades e que deve, tanto quanto possível, ser público e acessível a todos.

4. Que histórias de mulheres ou grupos menos visíveis continuam por recuperar?

Há ainda muitas histórias por recuperar, sobretudo as de pessoas que deixaram poucos registos escritos ou que foram representadas quase sempre a partir do olhar de outros. É esse o caso de muitas mulheres trabalhadoras, por exemplo, cujas vidas aparecem nas fotografias, nas fábricas, nos espaços domésticos ou nos testemunhos orais, mas raramente com a mesma visibilidade que os empresários, os responsáveis políticos ou outras figuras públicas.

Também me interessam muito as histórias ligadas ao colonialismo, precisamente porque durante muito tempo foram contadas sobretudo a partir da perspectiva de quem detinha o poder. Há ainda muito por compreender sobre as experiências das pessoas colonizadas, sobre a forma como foram representadas, exibidas ou silenciadas e sobre aquilo que essas imagens, objectos e memórias nos podem dizer hoje. No caso de um país com um passado colonial como Portugal, conhecer também estas histórias é importante para compreendermos melhor a sociedade em que vivemos, a diversidade que a constitui e algumas das ideias e preconceitos que chegaram até ao presente.

O mesmo acontece com as crianças, nomeadamente no contexto do trabalho infantil. Sabemos que muitas trabalharam em fábricas, oficinas, campos ou outros espaços desde muito novas, mas as suas experiências pessoais são muito mais difíceis de recuperar.

Para mim, conhecer estas histórias menos visíveis não serve apenas para completar aquilo que sabemos sobre o passado. Ajuda-nos também a olhar de forma mais consciente para o presente, a compreender melhor experiências diferentes das nossas e a reconhecer as consequências que determinadas formas de desigualdade, exclusão ou preconceito tiveram na vida de pessoas reais. Conhecer o passado não garante que não se repitam os mesmos erros, mas dá-nos certamente mais ferramentas para os reconhecer e questionar.

É precisamente aí que a arqueologia, a fotografia, os objectos e os testemunhos ganham importância, pois permitem-nos aproximar-nos de vidas que ficaram pouco documentadas e construir uma história mais ampla, feita não apenas pelas pessoas que ficaram nos livros, mas também por aquelas que quase desapareceram deles.

5. O que gostaria que o público sentisse ao entrar num museu, sítio arqueológico ou lugar patrimonial?

Gostaria que as pessoas sentissem que aquele lugar, objecto ou espaço também lhes diz respeito. Não necessariamente porque faça parte da sua história familiar ou pessoal, mas porque conseguem encontrar nele alguma coisa que lhes faça sentido, que lhes permita compreender melhor o passado, o presente e até a comunidade em que vivem.

Também gostava que saíssem com a sensação de que aprenderam alguma coisa sem que essa aprendizagem tivesse sido pesada ou distante. Um museu ou um sítio patrimonial pode transmitir conhecimento, mas também provocar curiosidade, surpresa, identificação ou vontade de saber mais.

A questão da identidade é igualmente importante, desde que seja entendida de forma aberta. O património pode ajudar-nos a perceber quem somos enquanto comunidades, como chegámos até aqui e como diferentes pessoas e experiências contribuíram para essa história. Não se trata de criar uma narrativa única ou idealizada, mas de reconhecer uma identidade feita de várias camadas, encontros, conflitos, mudanças e memórias.

E, no fundo, gostaria que as pessoas tivessem vontade de voltar. Quando um espaço patrimonial continua a despertar interesse, a criar ligação e a fazer sentido para quem o visita, deixa de ser apenas um lugar onde se vai uma vez e passa a fazer parte da vida das pessoas.

Fotografia – créditos: Susana Pacheco

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