É fácil reconhecer uma interrupção quando alguém fala por cima de nós, de forma apressada e pouco ordeira. Mais difícil é perceber aquelas que, tantas vezes, fazemos em silêncio. A pessoa ainda vai a meio da frase e já estamos a preparar a resposta, o conselho, a recordar um caso semelhante, a escolher a frase com que lhe explicaremos o que devia fazer, sem esperar pelo fim. Continuamos de olhos postos nela, mas, sem perceber, deixámos de acompanhar a conversa, a história, a frase. Já, só, estamos à espera da nossa vez para falar e despejar as mil e quinhentas ideias que não param de “saltar” na nossa cabeça.
Dou por mim a fazer isso, uma e outra vez. Muitas vezes, com a melhor das intenções. Quero ajudar, aliviar, mostrar que compreendi. A vontade de ser útil apressa-me. Posso acabar uma frase que não era minha ou levar a conversa para uma opção que conheço melhor. Só mais tarde percebo que a outra pessoa talvez estivesse a tentar chegar a um lugar diferente daquele para onde a quis conduzir, sem esperar ou pensar.
Tenho refletido muito sobre isso enquanto preparo as conversas do Deixa-me Contar. Faço perguntas porque tenho curiosidade, mas preciso de aceitar que as respostas, na verdade, não me pertencem. Uma pessoa pode deter-se num pormenor que eu posso julgar secundário. Pode deixar uma questão sem resposta, porque nãolhe fez sentido. Pode preferir falar de outra coisa. E está tudo certo. O cuidado começa por respeitar essa escolha, em vez de procurar um texto que confirme aquilo que eu esperava encontrar.
O mesmo acontece fora da escrita. Há quem conte uma dificuldade de forma desordenada, repita um episódio, volte atrás para explicar uma coisa que é, para mim, aparentemente pequena. É tentador apressar as coisas. Contudo, às vezes, é precisamente naquele pormenor que está a parte mais difíl. Se eu decidir cedo demais o que importa, arrisco-me a perder o que a pessoa só conseguiria confiar-me depois de algum tempo de conversa. Do seu tempo.
Escutar exige uma disponibilidade que nem sempre tenho. Que nem sempre temos, na verdade. Há dias em que estou cansada ou distraída e seria mais honesto reconhecê-lo. Dizer, abertamente, hoje não. Prefiro combinar outro dia a oferecer uma atenção intermitente, feita de olhares para o telemóvel e respostas automáticas, que na maior parte das vezes saiem apenas para demonstrar que estamos ali. Tenho particular apreço por quem nos diz que nos quer escutar com tempo. Sinto nesse gesto uma consideração que nenhuma frase muito bonita substitui. Sim, escutar pode ser diferente de ouvir.
Gostava que este site me ensinasse, também, a conversar e escutar melhor na minha vida. A fazer menos suposições, a perguntar quando não compreendo, a suportar um silêncio sem o preencher imediatamente, com a pressa quetanta vezes domina a nossa vida. Há pessoas que só precisam de conseguir dizer uma coisa até ao fim para começarem a perceber o que sentem. Posso estar ali, em silêncio, sem lhes roubar essa descoberta. Hoje, quando me ocorre uma resposta enquanto alguém ainda fala, procuro lembrar-me apenas de uma coisa: deixa acabar. Podes ainda não ter ouvido o mais importante.
Entra. A casa é tua. ~ Carla Henriques

